| Bandoleiros A narrativa transcorre em Porto Alegre, porém é entremeada por
lembranças de quando o narrador, protagonista do romance, vivera nos Estados Unidos.
Romance em primeira pessoa no qual, do início ao fim, é omitido o nome do protagonista .
Inicia com o protagonista relembrando do amigo doente, que vem a
falecer em seus braços a caminho do hospital. O episódio ocorre em Porto Alegre, no
verão. Eram velhos amigos. O protagonista viera dos Estados Unidos, onde residia,
especialmente para ficar com o amigo. Ada, sua esposa na época, tenta salvar um casamento
em ruínas mantendo relações sexuais com outros homens, num apelo desesperado para
reconquistar um marido que já não lhe demonstra o menor interesse. Separam-se. Ada vai
viver numa praia em Santa Catarina, e lá conhece um pescador por quem apaixona-se.
O protagonista é um escritor. Seu último livro, um romance destacado
pelos críticos, não vendera nada. Entrega-se à bebida. Há um mês veste a mesma roupa.
Vive de traduções das quais está saturado. Encerrado em seu ostracismo e solidão, e
sob o espectro do fracasso, vagueia pelas ruas e bares ainda pelas manhãs.
Nos bares, bebendo dreher e com firme intuito de turvar a realidade,
sente-se incomodado com conversas alheias. Vê-se obrigado a escutar um garoto que se diz
fã dos seus livros. Escuta-o sem o ouvir.
Lembra-se de quando Ada era professora numa escola pública
experimental, antes de debandar para tantas outras coisas que tentou fazer na vida. Agora
Ada aprendia a pescar. Lembranças permeando-lhe os pensamentos.
A menina, aluna de Ada, que se sentara sem calcinha à sua frente no
dia em que ele apresentara-se de operário para uma de suas aulas de sociologia. Onde
andaria a danadinha, pensava.
Bêbado, joga a chave do apartamento num bueiro. Novamente se vê no
passado, deitado no degrau de um prédio público. Avista o negro cego tocando sax e
chama-o. Conhecera-o há anos. Era músico. O cego sofria de fome. Mas preferia assim,
viver sem calendário. Foram para o bar tomar café. Depois para a rua, à deriva,
enquanto o vento soprava forte.
De volta ao apartamento, recebe um telefonema que mal consegue
entender, apenas que é de um estrangeiro. Pega o ônibus para Viamão. No fim da linha
uma igreja, uma galinha, uma menina vendendo caramelos.
No lugarejo olhares esquivos dos habitantes. Sobe o morro bêbado; o ar
puro revitaliza-o. Está indo para o Vale que fica depois do morro. Lá do alto avista uma
casinha de madeira sozinha no meio da vegetação árida lá embaixo. Ao chegar à casa
bastante abandonada e sentindo muita sede, chama por alguém. Aparece um homem com sotaque
estrangeiro que lhe diz não ter água em casa, só cachaça. Era louro, vestia uma calça
branca arregaçada e tinha uma tatuagem no peito e um olho tatuado.
Beberam duas garrafas de cachaça na casa escura, iluminada apenas por
um lampião. O americano chamava-se Steve e discorria sobre sua vida, sobre o tempo do
colégio, deixando seu visitante completamente entediado. Este, perguntado-se se alguém
neste mundo ainda poderia lhe interessar. Steve conta-lhe que estudou em Harvad e que
durante anos foi dopado por um psiquiatra. Abandonou Harvard. Internou-se numa clínica e
adquiriu uma grave amnésia. Recebera tantos choques insulínicos que nunca mais
recuperara de todo a memória. Estava ali a falar o quanto a clínica o havia aniquilado.
A vida tornara-se-lhe vil. Steve prossegue sua história. A vida que tivera em Boston.
Fora casado com Jill antes de decidir mudar-se para o Brasil. Reencontrara o amigo Baby
Buffalo, que desde os treze anos não via. Baby Buffalo contou-lhe que aos vinte anos
estuprara uma mulher em Vermont, passara um tempo na prisão, e estava tentando refazer a
vida em Boston. A partir daí voltaram à velha amizade até Baby Buffalo ser preso
novamente.
Nosso protagonista começa então a falar sobre a experiência que teve
no mesmo parque de Boston em que Steve reencontrou Baby Buffalo. Conta-lhe que pisou num
corpo de mulher desenhado a giz no chão. Ao pé do corpo estava escrito que havia sido
estuprada. Steve torna-se possesso. Quer matá-lo, inicia-se uma briga que os levará à
extrema violência. Steve acaba extenuado e todo ensanguentado, mas resiste ainda. Nosso
protagonista também tendo sido muito golpeado, ameaça-o com uma pedra, e acaba
conseguindo escapar. Steve fica caído no morro, ao relento.
Na estada em Boston, Ada esteve lendo um livro pelo qual apaixonou-se,
chamado Minimal Society. Tratava de uma sociedade autosuficiente na qual tudo de
que se necessitasse seria produzido, abolindo a introdução do comércio exterior. Nesta
sociedade autogerida, o sentido de nacionalidade não existia, pois o importante seria ser
um cidadão minimalista. Ali se desenvolveria também a crença na reencarnação. E assim
cada vez que se morresse, o espírito voltaria para uma sociedade minimalista mais
evoluída, já redimido dos erros passados. Por esta época, o protagonista e Ada já
andavam entendiados um com o outro. Ada fazia quindins para viver. Ada mantinha uma
relação estranha com Alícia, a mexicana com quem dividia o apartamento. Ia além da
amizade. Uma espécie de dependência por parte de Ada e paixão por parte de Alícia.
Quanto à sociedade minimalista de Ada, em que todos seriam livres,
tudo seria permitido: banhos grupais, trocas de casais, até que seria uma boa idéia
passar por essas experiências. Teria muito o que contar nos livros. Mas Ada lhe dizia que
por enquanto era melhor mesmo que voltasse para o Brasil. "A bem da verdade, qual o
dia que passa sem alguém dissolver minha última esperança? Há sempre alguém a postos
para declarar que estou perdido. Que já é outro o rumo das coisas e que eu me atrasei.
Que a história marcha e olha como ainda estou cheio de ilusões. Tudo marcha em direção
a uma clareza que absolutamente não compreendo. (...) Eu e tudo estávamos sofrendo de um
ridículo, mas esse ridículo não me dava vontade de rir mas sim um medo atroz. Então
entrei num bar e pensei num porre. Daqueles que eu costumava ter no Brasil. Daquelas
noites que no dia seguinte você não lembra de nada. E eu tinha um bom motivo para beber:
esquecer por uma noite do ridículo, o mais completamente."
Mary viera do Quênia. Era uma negra forte, de grandes seios. Fora aos
Estados Unidos apresentar um vasto relatório sobre pesquisas minimalistas desenvolvidas
em seu país. Falava de como os cegos seriam úteis nas sociedades minimalistas, pois
através de suas experiências com a escuridão é que se chegaria à luz. Nos ensinariam
que só há um único caminho: o da luz. Dizia também que pesquisas recentes sobre o sono
afirmavam a importância de não se observar alguém dormindo, porque o ser humano é a
única espécie que odeia o seu semelhante, e quando este dorme, sente um desejo intenso
de eliminá-lo, embora esse desejo visceral seja reprimido pela moral social.
As conversas de Ada, Alícia e Mary giravam em torno da sociedade
minimalista. Não havia espaço entre elas para um intruso que não estivesse de tal modo
integrado. Foi quando Ada pediu-lhe que voltasse ao Brasil.
Em Porto Alegre, nosso protagonista fala a João sobre a sociedade
minimalista. João quer saber como é encarado o Terceiro Mundo, as relações de
produção, os velhos. E irrita-se pelo amigo não ser capaz de responder-lhe. João era
um escritor corajoso. Escrevera um romance esperançoso em contraponto à atual sociedade
corrosiva. João dizia que era preciso manter a serenidade diante das crises. Morreu
alguns dias depois dessa discussão.
Ada retornara dos Estados Unidos numa cadeira de rodas, sobrevivendo de
soro e sedativos, sem dizer palavra e incapaz de reconhecê-lo. Nosso protagonista ficou a
seu lado até sua completa recuperação. Finalmente curada, Ada explicou-lhe o que
acontecera. Alícia tentara matá-la sufocando-a com um saco plástico enquanto dormia.
Ada livrou-se de Alícia dando-lhe um empurrão com os pés, jogando-a contra a parede e
causando-lhe um dano irreversível. Alícia hoje está sobre uma cama, levando uma vida
vegetativa. Mary, que viu o que acontecera, prestou um excelente testemunho, livrando-a da
prisão. Mary aproveitou para escrever uma tese sobre o sono minimalista, e foi comprovado
o ódio do homem pelo homem e sua irresistível tentação de matá-lo enquanto assiste-o
dormir. A tese virou livro, que virou best-seller. Mary comprou uma fazenda no
Quênia e lá fundou a primeira comunidade minimalista.
O protagonista conhecera Steve na ocasião em que fora
"convidado" pelas três mulheres minimalistas a voltar para o Brasil. Tinha ido
beber num bar quando Steve, após puxar assunto, convidou-o a conhecer seu refúgio, uma
velha casa de campo nos arredores de Boston. No trajeto, Steve contou-lhe sobre a casa
abandonada que conhecera em Viamão, lá em Porto Alegre. Contou-lhe também pormenores de
sua vida, que pouco o interessou. Steve, muito alcoolizado, entrou em coma alcoólico, e
antes defecou na roupa. Deitado de bruços sobre a cama da velha casa implorou ao amigo
que o limpasse. Este, por sua vez, esgotado com aquela situação insuportável e
extremamente nauseado, por um momento desejou matá-lo.Acabou por tirar-lhe as roupas
sujas, arrastou-o até o banheiro e colocou-o dentro da banheira. Enquanto banhava-o,
alguém abriu a porta da sala e entrou. Era Jill, uma bela mulher ruiva com olhos verdes.
Disse-lhe estar cuidando de Steve. Agarrou- a . Houve reciprocidade. Despiu- a . Ficaram
ali se bulinando por um longo tempo até que Steve deu um grito e Jill foi até ele. Steve
caíra no banheiro e estava sangrando. Trouxeram-no para fora. Jill debruçou-se sobre ele
e abraçou-o ali, no chão mesmo. Nosso protagonista partiu rumo ao Brasil.
Já no Galeão só pensava em reencontrar João. Ao avistá-lo sorrindo
por detrás do vidro a poucos passos, largou a mala que havia exigido-lhe um enorme
esforço. Abandonou a mala com todas as suas coisas gastas e foi direto ao encontro de
João, sem saber que dias depois... "Porque João sorria, e não importava coisa
alguma que ele fosse morrer. João vai. Eu vou". Todos nós vamos morrer. Então, o
que importava era aquilo mesmo - eu devolver esse largo sorriso para João, que está ali,
do outro lado do vidro, me sorrindo.
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